Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Os pobres serão um bom negócio?

Há umas semanas atrás, o canal História exibiu um programa curioso. Era dedicado a um projecto da Philips que tinha como objectivo construir um fogão a lenha para a população pobre da Índia, estimada em cerca de 300 milhões de habitantes.

O que tinha de curioso o programa era o facto de uma empresa capitalista considerar viável construir um produto para os pobres, ou seja, para gente sem dinheiro. O mesmo descobriu o BCP quando há alguns fez um estudo o qual demonstrou que os pobres eram melhores cumpridores das suas obrigações que os ricos. Como consequência, resolveu apoiar o microcrédito. O Microcrédito que, recorde-se, foi um projecto para financiar empreendores pobres.

Curioso era também o facto de o lançamento do produto ser precedido dos mesmos procedimentos que os produtos destinados á classe média e á classe média alta, inclusivé, o facto de perguntarem opinião aos destinatários sobre o  que achavam do produto e efectuarem os ajustamentos adequados á opinião das pessoas.

Finalmente, a atitude da empresa perante as pessoas: todos, pobres ou ricos, são potenciais consumidores; tudo o que é preciso é encontrar o produto certo para as suas necessidades e pelo preço adequado ás suas posses.

Comparando esta atitude com a visão portuguesa e europeia da acção social a que conclusão chegámos? 

Primeiro, os pobres são considerados uns inuteis. Veja-se o que se diz do Rendimento Social de Inserção. Criado para apoiar e ajudar as pessoas a saírem das situações de pobreza, através do contrato de inserção, não faltou quem tenha insultado o projecto e transformado naquilo que não era o objectivo: mais um subsidio. Querm usufrui dele é insultado todos os dias, mas ninguém pensou no mérito e potencial que estas pessoas poderiam ter. A Philips pensou.

Também ao nível da Acção Social, ninguém pergunta ás pessoas o que pensam dos "produtos" que lançam para as apoiar. Toda a gente acha que qualquer ajuda é boa e portanto se têm alguma coisa contra é porque são ingratos e injustos. A Philips perguntou.

Por fim, como ninguém os valoriza, ninguem se preocupa a encontrar a estratégia certa para os abordar e tirar proveito das suas potencialidade. A Philips valoriza-os

Ou seja, uma empresa capitalista fez , numa perspectiva comercial, aquilo que a Acção Social o deveria fazer por principio e metodologia de trabalho. Aparentemente os capitalistas são mais integradores do que os "sociais".

A verdade é que este exemplo demonstra bem um facto inquestionável: o sucesso da Acção Social depende da forma como encaramos os destinatários. Se os valorizarmos, concerteza que vamos tirar mais proveito do que continuarmos a tratá-los como um fardo que temos que carregar.

Considerando que na Europa o número de pessoas carenciadas se cifram em cerca de 20 milhões (2 milhões em Portuga), a grandeza deste número deveria fazer-nos pensar na atitude da Philips. 

publicado por vitruviano às 15:08
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2 comentários:
De DoContra a 16 de Fevereiro de 2010 às 14:33
Misturam-se aqui coisas que não têm nada a ver.
Produtos para "pobres", muitas empresas têm. Veja-se o caso das empresas de telecomunicações: quando o mercado fica saturado, todas as franjas sociais são alvos potenciais. Quanto à forma de lançar um produto, este é um método cada vez mais standard e utilizado.
Quanto aos RSI e outros subsídios, isso é outro assunto. Não me consta que a Phillips ou o BCP estejam a dar um produto aos pobres em troco de nada...
Finalmente, se conhecermos o custo de fabrico do fogão a lenha da Phillips, lhe acrescentarmos 0,10€ de lucro e multiplicarmos por 150 milhões ( metade do público-alvo ), teremos 15 milhões de lucro. Nada mau...
De vitruviano a 17 de Fevereiro de 2010 às 10:12
A questão aqui não é saber quanto é que a Philips vai lucrar com o produto. A questão é a atitude perante as pessoas. Não só consideraram a população relevante, como consideraram a sua opinião pertinente, acreditaram nela, facto que não vejo acontecer nos diversos programas de intervenção social.

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