Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Gritos mudos

O caso dos 25 suícidios na France Telecom impressiona pelo grau de desespero.As pessoas não se despediram, fizeram grave ou contestaram nas ruas a situação. Em vez disso, optaram pela atitude mais desesperada que se podia tomar. A falta de confiança e de esperança era tal que sentiram que já não havia mais soluções para as suas vidas.

Este caso limite leva-me a reflectir nos actuais métodos de gestão do trabalho. Os empresários consideram as pessoas escravos, objectos que se têm que estar disponíveis a toda hora,  a todo momento e a baixo custo para o que entenderem.

O curioso deste método é que contraria tudo o que têm sido defendido pelos "gurus" de gestão que defendem equipas motivadas, informadas e devidamente tratadas. Mais, para defenderem esta tese, cobram principescamente pelas suas conferências que têm como destinatários os empresários e gestores que depois cometem estas loucuras. Um verdadeiro contrasenso!

Em Portugal., Francisco Van Zeller, presidente da CIP, já veio afirmar que aumentar o salário minimo nacional em 0,80€ dia é decidir quantas empresas querem encerrar. Como sempre, os empresários portugueses mantêm o discrurso da chantagem. Para manter o pessoal disponível e barato, ameaçam logo com o encerramento de empresas.

Não sou apologista de grandes revoluções salariais, porque já se provou que elas não resolvem o problema e as deficiências estruturais da mão-de-obra em Portugal mantiveram-se apesar do choque salarial do pós 25 de Abril.

Mas está mais do que provado que a aposta em mão de obra barata não é o futuro do país e que este paradigma têm que ser invertido. Também está demonstrado que os nossos trabalhadores são tão produtivos como qualquer outro europeu quando são bem orientados e geridos.

Quanto aos vencimentos, queria recordar que ao contrário do que andam por aí a pregar, os pobres em Portugal têm emprego e trabalham, só que o que ganham não dá para atinigir um nível de vida decente.

Se calhar chegou a hora de encerrar as tais empresas que não aguentam 0,80€ por dia de aumento do salário minimo nacional, quando ele próprio já é uma miséria.

Talvez esteja na hora de alguns empresários e gestores das melhores empresas em Portugal ocuparem lugares de representação empresarial e proporem novos métodos de gestão e incentivarem as empresas a adoptá-los, em vez da ultrapassada geração que dominia estes cargos corporativos.

Porque em Portugal, e espero que nunca cheguemos a este ponto, ainda não houve suícidios, mas uma outra forma de demonstrar falta de esperança no futuro já foi adoptada: deixaram de ter filhos.

Não é suicidio, mas uma outra forma de soltar gritos mudos de desespero.

publicado por vitruviano às 16:36
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Mensagem de Esperança

. Os pobres serão um bom ne...

. Gritos mudos

. Saramago é Deus!

. Economia

. ...

. Desigualdades Sociais em ...

. Pelo sonho vamos

. Escolas

. Páscoa

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds