Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Economia

" A economia, nomeadamente a partir do abandono do padrão-ouro, tornou-se uma ciência inteiramente autonomizada e separada da realidade. É um jogo fictício e arbitrário porque, contrariamente ao que se poderia supor, as crises dependem muito menos da maior ou menor produção de bens e serviços - que representam uma ligação ainda que ténue com a realidade - e muito mais artifícios arbitrários como a cotação das moedas e a taxa de juros. Oitenta por cento da aplicação da energia humana, onde se inclui a produção de bens e serviços, não vai aos indicadores sobre os quais trabalha a ciência económica. Um dia será evidente que a aplicação da teoria económica à sociedade é uma arbitrariedade anti-científica que nos afecta a todos, mas que não apresenta mais do que uma ficção legal e abstracta que plana sobre essa sociedade. Eles hão-de ver que o que afinal nos salvou dos economistas, foi aquilo que eles, displicentemente, chamam "economias paralelas", porque são elas que representam o protesto da realidade contra abstracção arbitrária e desencarnada que as teorias económicas representam." (António Alçada Baptista, «Os Nós e os Laços», pags. 202 e 203.)

Acho que este extracto é muito elucidativo sobre a actual crise económica. Como é que se explica que não havendo crise de produção, o preço do petróleo atinja os valores que atingiu?

 

publicado por vitruviano às 12:18
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Como Assistente Social, não podia de forma alguma ficar indiferente à questão das desigualdades sociais em Portugal. Apesar do desfasamento temporal na divulgação do Relatório de Bruxelas que tanta polémica deu, ele não só não me surpreendeu, como também acho que, em tão pouco tempo (falámos em 4 anos tendo em conta que o Relatório é de 2004), não devemos ter evoluído muito e como tal ele continua válido. Do relatório destaco a desigualdade na riqueza e era mais sobre este ponto que queria concentrar a minha atenção. Antes de mais, porque considerei que a concentração de riqueza em cada vez menos mãos é o factor que mais contribui para a desigualdade social. O mais estranho é que são os países mais ricos que têm menos concentração de riqueza, facto que contraria a mentalidade portuguesa que considera que quantas mais pessoas ricas, mais rico é o país. Fica provado com este relatório que nada disto é verdade. A segunda ideia que cai é de que a pobreza resulta da preguiça. Somos o país em que as pessoas trabalham mais horas e que piores salários têm. Isto foi perfeitamente demonstrado pelo Prof. Bruto da Costa que ao longo de vários anos têm-se dedicado a estudar o fenómeno da pobreza em Portugal. Numa entrevista publicada no Público ele identifica de forma muito clara os fenómenos que conduzem á pobreza em Portugal, a saber: Baixos salários, evasão fiscal, organização das empresas e métodos de gestão. Mais ainda, os pobres trabalham, têm vencimento e não conseguem deixar de ser pobres. A distribuição de riqueza, ao contrário de que afirmam os sectores conservadores da política portuguesa, não se faz pelos subsídios. Estes apenas deveriam ser usados como meio de evitar a fragilidade económica de pessoas ou famílias, mantendo um mínimo de dignidade e sobrevivência. A distribuição da riqueza faz-se antes de mais pela valorização do trabalho e da actividade económica. O investimento na produção e não na especulação é a alavanca para o combate ás desigualdade sociais. Ao nível do trabalho, vencimentos dignos fazem muito mais pela distribuição de riqueza do que os investimentos na Bolsa. Esta ideia contraria a prática vigente, que reclama mais despedimentos e pouco faz para incentivar mais investimentos. Tenho consciência de que a qualidade de emprego e a sua manutenção terá que ser revista, ou seja, não poderemos manter o sistema de emprego baseado no emprego de mão de obra intensiva, barata e de baixas qualificações e que também a força laboral terá que trocar o emprego seguro pela empreagabilidade do seu trabalho. Mas em Portugal, e no resto do mundo diga-se, a concentração de empresas em cada vez menos grupos económicos que se estão a tornar cada vez maiores, reduz o mercado de trabalho, limita o acesso a ele e impõe a “lei do mais forte” nas relações contratuais, evitando deste modo, o desenvolvimento de um verdadeiro mercado onde realmente as capacidades e competências de cada um possa ser desenvolvidas e reconhecidas. A solução não pode ser encontrada só no país, embora os governos podem e devem fazer mais, nomeadamente, na própria consciencialização e participação dos cidadãos na resolução deste problema. E parte do segredo reside aqui. Não é continuando a pedir mais sacrifícios, nomeadamente, despedimentos e redução de vencimentos (e depois hipocritamente, como alguns sectores políticos o têm feito, chamar aos desempregados preguiçosos e oportunistas por “viverem” do subsidio de desemprego), mas sim construir a imagem de que o país é um projecto em construção no qual todos devem participar. A democracia têm um déficit de participação motivada por uma classe política que na dupla tentativa de controlar o poder e permanecer nele, teme e evita o desenvolvimento de movimentos de cidadãos. O movimento associativo e cooperativo é um instrumento valioso na superação destas dificuldades. Contudo, é sistematicamente desvalorizado em favor do tecido empresarial institucionalizado. E aqui reside outra saída para crise. O desenvolvimento da economia social permitiria abrir novas áreas de negócio, melhorar o nível da distribuição de riqueza e o equilíbrio social. Para isto é necessário que o novo modelo social europeu seja implementado e considere quer a participação cívica, quer a economia social dois instrumentos fundamentais para a saída da crise social que nós e a Europa estamos a atravessar. O projecto europeu terá que se afirmar por um novo modelo económico-social que, sem por em causa a competitividade da economia, regule mercados, redistribua a riqueza gerada de forma mais justa e promova a inclusão social. A incapacidade de um país por si só (e por muito grande que seja) desenvolver este projecto, leva-nos a concluir que só uma unidade supranacional e cooperando entre si, pode criar uma nova organização social mais equitativa.

publicado por vitruviano às 12:13
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