O caso dos 25 suícidios na France Telecom impressiona pelo grau de desespero.As pessoas não se despediram, fizeram grave ou contestaram nas ruas a situação. Em vez disso, optaram pela atitude mais desesperada que se podia tomar. A falta de confiança e de esperança era tal que sentiram que já não havia mais soluções para as suas vidas.
Este caso limite leva-me a reflectir nos actuais métodos de gestão do trabalho. Os empresários consideram as pessoas escravos, objectos que se têm que estar disponíveis a toda hora, a todo momento e a baixo custo para o que entenderem.
O curioso deste método é que contraria tudo o que têm sido defendido pelos "gurus" de gestão que defendem equipas motivadas, informadas e devidamente tratadas. Mais, para defenderem esta tese, cobram principescamente pelas suas conferências que têm como destinatários os empresários e gestores que depois cometem estas loucuras. Um verdadeiro contrasenso!
Em Portugal., Francisco Van Zeller, presidente da CIP, já veio afirmar que aumentar o salário minimo nacional em 0,80€ dia é decidir quantas empresas querem encerrar. Como sempre, os empresários portugueses mantêm o discrurso da chantagem. Para manter o pessoal disponível e barato, ameaçam logo com o encerramento de empresas.
Não sou apologista de grandes revoluções salariais, porque já se provou que elas não resolvem o problema e as deficiências estruturais da mão-de-obra em Portugal mantiveram-se apesar do choque salarial do pós 25 de Abril.
Mas está mais do que provado que a aposta em mão de obra barata não é o futuro do país e que este paradigma têm que ser invertido. Também está demonstrado que os nossos trabalhadores são tão produtivos como qualquer outro europeu quando são bem orientados e geridos.
Quanto aos vencimentos, queria recordar que ao contrário do que andam por aí a pregar, os pobres em Portugal têm emprego e trabalham, só que o que ganham não dá para atinigir um nível de vida decente.
Se calhar chegou a hora de encerrar as tais empresas que não aguentam 0,80€ por dia de aumento do salário minimo nacional, quando ele próprio já é uma miséria.
Talvez esteja na hora de alguns empresários e gestores das melhores empresas em Portugal ocuparem lugares de representação empresarial e proporem novos métodos de gestão e incentivarem as empresas a adoptá-los, em vez da ultrapassada geração que dominia estes cargos corporativos.
Porque em Portugal, e espero que nunca cheguemos a este ponto, ainda não houve suícidios, mas uma outra forma de demonstrar falta de esperança no futuro já foi adoptada: deixaram de ter filhos.
Não é suicidio, mas uma outra forma de soltar gritos mudos de desespero.
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